O novo



Não tinha o estereótipo da beleza. Não tinha nem a beleza. Nascera já desfigurada de sensos comuns e ideologias programadas. Em verdade, tudo nela era esquisito, dos cabelos desgrenhados, inclinados a hirsutos, ao nome desinibido. Isolde, graça de sua avó paterna. Mulher cheia de sonhos, leitora ávida de romances franceses pitorescos, comprados no sebo da rua Sete.

Difícil saber há quanto tempo, mas trabalhava em uma pequena mercearia de um beco daqueles impossíveis de encontrar num dia de sol. Naquelas estantes ele a viu pela primeira vez. De início não notou, mas ela também o mirava, embora o fizesse por outros motivos. O fato é que dizer “ele a viu” é apenas enganação de seu próprio inconsciente: Garcia é miraculosamente cego.

Aproximara-se da moça para perguntar-lhe alguns preços de enlatados, acabando por descobrir seu nome e telefone sem chegar perto do custo de algum produto. Saiu quase cantarolando e jurou poder ouvir metáforas vivas, vestidas de ocre berrante, acompanhando seu coro mudo. O primeiro golpe da paixão é sempre forte, feito a palavra dos amantes.

Paralelamente, Isolde guardava as compras de Dona Águida, solteira por opção, em uma sacola plástica, assim como fazia com seus pensamentos. Certamente divertiria-se com ele, mas um cego não é sujeito para namorar. Era, também, orgulhosa. Assistiu à despedida da velhaca desejando boa sorte às sinapses nas sacolas.

Esperou três dias; não queria passar primeiras impressões erradas. Agonizou durante setenta e duas horas. Nunca sentira algo tão perturbador por uma pessoa que não conhecera, que não era nem amiga, nem parente, nem amante. Convencera-se, então, de que existem inexplicações. Inconvencional: foi essa a única palavra que encontrou. Ao cabo da quarta manhã resolveu voltar para o armazém.

Estava arrumando a sessão de comida canina que alguma criança convenientemente chafurdara, assim como fazem os leitões brincando nos currais. A fazenda fora sua infância e sua infância fora fazenda. Disso ele também não sabia. Aproximou-se sem saber se lembraria de sua face, rotineiros que talvez fossem uns chamegos. Lembrou-se e marcaram logo um encontro que cheirasse um pouco menos a verduras podres, apenas um pouco menos. Saiu acreditado que ela o amava.

Levou assim as idéias durante meses, como que embaladas a vácuo para que nenhuma intempérie as moldasse. Para Isolde também os meses se foram, embora sem a graça e satisfação do outro, ainda sem engolir as troças que apenas seus sonhos lançavam. Não que o desgostasse, mas a chacota era inevitável, insuportável e inexistente. Em suas veias corria, afinal, o sangue de grandes barões do pó cujos legados somente ela parecia conhecer.

Queria eu poder transpassar aqui todo o romance da paixão dos dois, mas a esta história cabe apenas um conto e, ao perceber que me sobram poucas linhas, prefiro desferir logo o golpe final.
Pensara ele em casamento. Mentira: Pensava nisso desde a primeira vez e só agora caçara peito para propor-lhe. Rápido sim, e paradoxo ao primeiro ímpeto de esperar três dias. Esses casos, porém, não têm regras, e qualquer legislação vigente a eles não se aplica. Decidira-se usando estas exatas palavras, teoria virtual do amor pomposo que resumiria seu ato Shakesperiano, com argumentos os quais Demóstenes invejaria.

Seis horas: acordara desesperado pensando estar atrasado. Um sábado. Sete horas: toma o café impaciente mal comendo duas torradas. Oito horas: O desespero bate e ela só entra no trabalho ao meio dia. Nove horas: O relógio trêmulo disputa com ele batalha Hercúlea. Dez horas: Os segundos param e o futuro foge, galopante. Onze horas: Sai de casa.

Viaja até a esquina, entra na rua da quitanda. Ainda é cedo. O estabelecimento esfrega-lhe nos dedos as letras enormes, gigantescas, alto relevo: FECHADO. Ouve um tumulto e, sem mais controle sobre o corpo, se aproxima da multidão. Alguém levara um balaço e estava morto. Uma mulher, loira, alta, desconhecida. Era essa a descrição. Aproveitou a folga da polícia para aproximar-se. Sentiu-lhe a feição, a pele fria, sentiu pela primeira vez a falta de vida e esse Braille, distribuído em folhetos por epitáfios, ninguém nunca o ensinou. Garcia inclinou-se ainda para beijar outra vez o cadáver; mas então não pôde mais. O beijo rebentou em soluços, e os olhos não puderam conter as lágrimas, que vieram em galões, lágrimas de amor calado e desespero.

As barreiras chegaram e teve de se afastar. Isolde, que nunca sofreu pelo homem mazela que fosse, estava agora inerte no asfalto gelado, perdera para a inimiga maior o único ser capaz de adorar suas flácidas feiúras. Garcia, que ainda hoje chora à menção da mulher, saiu acreditado que ela o amava.


By: Anjo da Guarda

Comentários

Postagens mais visitadas